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Não sou alegre nem sou triste, sou Cecília


Por Asmynne Bárbara

Ninguém mais lê poesias, e dos poucos que lêem, muitos lêem Cecília Meireles. Seria injusto não citar os grandes Drummond, Bandeira, Cabral e tantos outros que ocupam o panteão da literatura poética, mas fiquemos com Cecília e suas poesias de simples versos ritmados que lemos de uma tragada só, fácil e compreensível por crianças de seis anos. O que obviamente não a desmerece, ou poesia só seria poesia por que crianças de seis anos não poderiam compreendê-la?

Cecília trazia para as suas poesias um universo comum à infância, permeada de símbolos como planeta, jardim, canteiro, violeta, borboleta. A compulsão por nomear as coisas à sua volta. Suas poesias são cenários mágicos desenhados por um olhar infantil.

“Em pequena (“ eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando") tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas.”

As fatalidades do destino, que para alguns renderiam uma poesia obscura e pesada, em Cecília se comprimiram na medida exata da melodia. Sua trajetória foi uma obstinação silenciosa dos que fazem apenas o que precisa ser feito, um heroísmo tímido, por que as lágrimas se depositaram na poesia.

Perdeu pai, mãe e irmãos logo nos primeiros suspiros da vida, estudou na Estácio de Sá, depois na Escola Normal, foi professora de Literatura, mãe de Maria Elvira, Maria Fernanda e Maria Matilde. A poetisa de palavras claras ressurge, após 20 anos de seu falecimento, no relançamento das suas obras pela Nova Fronteira, e o que essa pequena biografia não pôde dizer, será lido nos versos inconfidentes dessa carioca. Lidos apenas nas entrelinhas, pois o que se revela na sua poesia é uma Cecília que pouca mágoa guardou da vida, uma mulher apaixonada por gente, que adora viajar.

“Cada lugar aonde chego é uma surpresa e uma maneira diferente de ver os homens e coisas. Viajar para mim nunca foi turismo. Jamais tirei fotografia de país exótico. Viagem é alongamento de horizonte humano.”

As séries de crônicas de viagem trazem as reflexões sobre as civilizações que conheceu no Brasil e no exterior, viagens que a fizeram descobrir gente. As crônicas revelam para os leitores, por meio do lirismo e da sensibilidade que sempre a acompanharam em toda a sua produção poética, a sua paixão por se permitir conhecer o mundo.


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Frank Lima