Cyberbullying afeta milhões de crianças e adolescentes no mundo inteiro
Por Andréa Barros
“Me senti ofendida e agredida emocionalmente”. A afirmação da estudante Kethlyn Lima, de 18 anos, resume a indignação de jovens que sofrem com uma prática que tem se tornado comum entre sites de relacionamento: o cyberbullying.
Há 2 anos, ainda adolescente, Kethlyn resolveu criar uma página no orkut com objetivo de manter amizades à longa distância e fazer novos amigos. Ela só não esperava que pudesse ser vítima de um ato de difamação feito por garotas de sua idade que demonstravam sentimentos de inveja em relação à jovem e já haviam provocado intrigas em relação à própria. “Elas conseguiram minha senha e alteraram meu perfil na página colocando xingamentos e deturpando a minha imagem com fotos pessoais que já se encontravam em meu álbum”, diz ela.
Para aqueles que nunca ouviram falar no assunto, bullying é um termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully ou "valentão") ou grupo de indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo incapaz de se defender. No caso da internet, a violência costuma ser psicológica, já que os bullies – como são conhecidos aqueles que praticam o bullying – agem com a difamação de outras pessoas em comunidades do orkut, e-mails, torpedos, blogs e fotologs.
Como um tipo de “bullying modernizado”, o fenômeno acontece por meio da internet e busca humilhar e ridicularizar alunos, pessoas desconhecidas e também professores perante à sociedade virtual. Seja por inveja ou até mesmo pela busca de uma popularidade entre os amigos, os agressores se manifestam provocando insegurança, baixa auto-estima e vulnerabilidade nas vítimas.
NÚMEROS - De acordo uma pesquisa da Pew Research, de 2007, divulgada no site oficial da Cable News Network (CNN), 32% dos adolescentes norte-americanos já foram vítimas de cyberbullying. No Brasil, ainda não há registros de pesquisas que revelam índices de incidência de cyberbullying, porém no final de 2006, uma escola da rede privada do Distrito Federal realizou um levantamento de dados com um grupo de 530 alunos de 1º ano do Ensino Médio. Os dados revelaram que 20% foram vítimas de “ataques online”. Desses, 63% eram meninas.
Para a psicóloga Rosana Éleres de Figueiredo, da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), os autores do cyberbullying são pessoas de perfil franzino e inseguro. Os agressores criam um “personagem” camuflado através do meio virtual. “Os jovens que possuem tal problema geralmente são pessoas com falta de estrutura familiar. Eles se tornam emocionalmente e afetivamente mais vulneráveis”, explica Éleres.
O fato tem despertado a atenção de professores e pais. Pela internet, os insultos e ofensas multiplicam-se mais rapidamente. Na capital mineira de Belo Horizonte, o Colégio Batista adotou um trabalho de orientação contínua durante todo o ano letivo e entende que a orientação aos adolescentes sobre o uso correto da rede mundial de computadores é problema da escola. “Para todo aluno com problemas por causa de infração ou violação, a escola tem um padrão de atendimento”, destaca a coordenadora do 2º ano do Ensino Médio e Curso Técnico de Administração, Sandra Beconha. Segundo ela, os alunos com “problemas” são encaminhados a psicopedagogos e, se necessário, a família é orientada a procurar por ajuda psiquiátrica. Acredita-se que assim aprenderá a lidar com problemas que possam estar causando o desvio de conduta.
No Maranhão, a Plan - organização não-governamental de desenvolvimento centrado na Criança e no Adolescente - atua desde 1997, com o objetivo de ajudar estes jovens que sofrem bullying e cyberbullying por meio de programas desenvolvidos nas áreas de educação, saúde e promoção de direitos. Além disso, a campanha “Aprender Sem Medo”, lançada em outubro de 2008 pela ONG, tem como principal foco o bullying escolar, incluindo o cyberbullying, e suas implicações para a educação. "‘Aprender Sem Medo’ pode ser uma campanha da Plan, mas é responsabilidade de todos”, afirma o assessor de Educação da Plan Brasil, Charles Martins.
PUNIÇÃO - Apesar de “anônimos”, os delinquentes virtuais podem ser facilmente descobertos por investigação policial e consequentemente, processados e julgados. Os praticantes do cyberbullying, se denunciados, podem pagar indenizações, prestar serviços comunitários ou, dependendo da gravidade dos efeitos de seu crime (como provocar o suicídio de alguém), ser preso.
O promotor da 1ª Vara da Infância e Juventude do Maranhão, Márcio Thadeu Marques, garante a defesa dos direitos de crianças e adolescentes que sofrerem qualquer tipo de agressão virtual. “De acordo com a Constituição, crimes virtuais contra a honra como difamação e constrangimentos públicos são encaminhados ao Juizado Especial Criminal podendo levar à prisão de até dois anos em regime fechado”, explica Marques. No caso de os agressores serem crianças ou adolescentes, a punição é feita por meio do pagamento de multa pelos seus pais ou responsáveis e inserção de medidas sócio educativas na vida dos praticantes do crime virtual.
Márcio Thadeu recomenda que o primeiro passo a ser tomado pelos pais das vítimas de cyberbullying é procurar a Promotoria da Infância e Juventude do Maranhão, localizada no Lusitana Shopping, próximo ao Elevado da Cohama. Para tanto, é fundamental que as vítimas guardem objetos como fotos, diálogos e mensagens de conteúdo ofensivo, comprovando a existência do crime.




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