São Luís possui uma variada criação musical, na qual a música erudita, a popular e a mistura dos dois gêneros se fazem presentes durante todo o ano. Escolhida como capital da cultura brasileira neste ano, a cidade possui uma infinidade de ritmos. Porém, na falta de uma indústria musical, muitos artistas vivem em condições aquém da grandeza de seus talentos, principalmente na música erudita. O fato influencia a opinião de estudantes, músicos, professores e emissoras de rádio.
Com variada e antiga produção musical, da qual se podem observar registros de músicas do compositor Antônio Rayol, oriundas do século XIX, São Luís possui cursos de licenciatura na área somente há cinco anos. E não tem nenhum curso de bacharelado.
Segundo professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Juvenal Alves, que está no Estado há duas semanas, os conhecimentos acadêmicos darão um grande “empurrão” na música maranhense.
“Eu me sinto surpreso pela tradição musical forte que o Maranhão possui. O que eu sabia que existia era o boi, mas é muito mais do que isto. Divulgação é importante, assim como o curso, para fomentar a pesquisa, realizar registros, criar novos domínios técnicos, fazer congressos, fóruns. Isto irá trazer pessoas do mundo inteiro que irão querer ver a musica daqui e levar para seus estados e países”, afirma o professor que concluiu o pós-doutorado em música na Universidade Estadual da Bahia (UEBA).
Para ele, a criação do curso está atrasada em relação a outras regiões. “Na Bahia, o curso já está em atividade desde 1975. Aqui, a universidade possui 46 anos e somente agora estão implantando um curso da área. É importante que a universidade absorva as manifestações locais e seja absorvida por elas para gerar conhecimento. Também é preciso que se haja condições para a formação de um mercado de trabalho. É ilógico formar sujeitos para um mercado inexistente”, reforçou.
Futuro incerto
Justamente o mercado de trabalho é o que mais preocupa o estudante do 5º período do curso de música da UFMA, Paulo Roberto, 20 anos, que sequer possui uma referência do que seja a habilitação escolhida. “Eu entrei pensando que era uma coisa e, na verdade, é outra. Achava que era mais instrumentação, mas eles preparam o aluno para ser professor mesmo. Espero que com a nova lei de incentivo à cultura, que determina que as escolas de ensino público tenham professores de música, seja posta em prática”, comentou. Paulo ainda falou sobre o seu desejo de ingressar no curso de economia, pois não conhece o mercado de trabalho maranhense de música.
Já para João Neto, estudante do 4º período e também músico profissional, o curso possui deficiências estruturais. “Eles foram implantar primeiramente o curso para depois estruturá-lo. Somente agora chegaram mais quatro professores e estão comprando instrumentos. Recebemos recentemente 35 pianos, mas faltam salas de estudo”. João está se formando no curso técnico de flauta da Escola de Musica do Estado do Maranhão e relatou que a formação serve para ingressar no mercado de trabalho: “A técnica serve para tocar qualquer música popular. Antigamente, o pessoal não conseguia viver só de música, mas hoje eles estão tocando em vários grupos de choro, por exemplo. E sobrevivem”.
O Espaço do Erudito
Na Rádio Universidade 106,9 FM, o programa específico com tabela total de música erudita é o Opus, nas segundas-feiras. A programação da Rádio, segundo Paulo Pellegrini, coordenador geral, segue uma tendência internacional moldada por tabelas de músicas contemporâneas. “Ao longo do dia, os ouvintes não costumam pedir por uma música erudita. O Opus é um programa para públicos diferenciados na qual as programações necessitam de uma contextualização. O programa também tem função de divulgar alguma produção do tipo erudito no momento de seu lançamento”, afirmou.
E continuou: “A rigor, somente existia a música erudita antigamente e esta era a música popular. Porém, com intercâmbios de informações e possibilidades de gravações, o popular foi tomando outra dimensão e o erudito passou a ser parte de um público específico, pois mesmo no auge, era restrito, sendo tocado nos bailes da alta sociedade. Hoje existem poucos maranhenses que produzem música erudita. É o caso do Mécio Gomes, Zezé Kassas e, o mais conhecido, Fernando Carvalho, que também surge na programação normal tocando músicas populares em estilo erudito”.
Apesar de não ter números comprovados e catalogados, Pellegrini acredita que a maior parte dos músicos presentes é originária de uma formação musical popular, salvo algumas exceções, como Flávia Bittencourt e Luciana Pinheiro, que possuem cursos de canto coral.



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